Se vivessem tanto quanto nós, choraríamos menos suas perdas, mas certamente não desfrutaríamos tanto desse amor. Saber que não estarão conosco na nossa velhice, se chegaram às nossas casas durante a infância ou a adolescência, nos obriga a ser um companheiro melhor, pois nessa relação não haverá tempo para pedidos de desculpas e arrependimentos.
Ou se é inteiro. Ou se é inteiro.
Achamos que somos necessários, mas basta olharmos para suas carinhas enquanto zelam por nós para termos a mais inabalável certeza de que a dependência é exatamente contrária. Como somos tolos na nossa prepotência!
Precisamos do abanar do rabo ao entrar em casa, das corridas alegres que desarrumam o tapete (que eles comeram) em torno da sala, das patas arranhando nossos braços ao pedir carinho, dos pulos que querem nos alcançar, do corpo quente encostado aos nossos pés, dos latidos altos e, principalmente, do olhar que nos diz “estou aqui”.
Somos capazes de suportar, e até de aceitar, a indiferença humana, mas desabamos diante de uma cauda que não se agita freneticamente ao nos ver.
E a magia ainda maior disso tudo é que não importa o tempo, se um, dois, cinco, dez ou quinze anos. Um dia apenas é suficiente. Aliás, um olhar...
Lu Gerbovic
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Esa música NÃO está sob licença Creative Commons porque não é minha.
- Tia Lu?
- Oi.
- O que você está fazendo?
- Passando lápis no olho.
- Lápis no olho???
- É, lápis pra pintar o olho. Cada coisa, não?
- Ééééé...Deus inventa cada coisa!
- Deus inventou o lápis de olho?
- Claro, Deus inventou tudo no nosso mundo, mas depois do Deus dos
dinossauros.
- Deus dos dinossauros?
- É. Antes da gente só tinha dinossauro aqui, daí o Deus deles acabou com
tudo, os dinossauros foram pro céu dos dinossauros e o nosso Deus inventou
a gente.
- Será que um dia nosso Deus vai acabar com a gente também?
- Aaahhh, vai.
- E daí? Será que vem um outro Deus inventar outra coisa?
- Aaahhh, vem.
- O que será que ele vai inventar?
- Fica lá olhando da sua nuvemzinha que você vai ver, ué.
************************
- Tia Lu?
- Oi.
- Você está triste?
- Um pouco.
- Por quê?
- Porque meu chefe brigou comigo hoje.
- Brigou por quê?
- Porque eu escrevi um negócio errado.
- Ué, apaga.
******************
-Tia Lu?
-Oi.
-Eu queria um mundo só de crianças.
-Eu também.
-Mas aí você não poderia viver nele.
-Poderia, sim. Eu sou criança.
-Não é, mas então eu queria um mundo só de crianças e meninas.
*****************
-Tia Lu?
-Oi.
-Eu não lembro da casa que minha irmã está falando.
-É porque você não tinha nascido ainda.
-Mas onde estava minha nuvemzinha que eu não vi nada lá de cima????????
Depois de quase matar ou morrer no trânsito de São Paulo cheguei (atrasada, claro) no consultório da dermatologista, onde me submeteria a uma limpeza de pele às sete e meia da manhã, único horário que restava na minha jornada de doze horas de trabalho e isso porque era o dia do rodízio do carro (que eu acabei furando e conseqüentemente sendo multada) e poderia me dar ao luxo de chegar no escritório depois das dez.
Mas o importante é que cheguei, pensei. Cheguei descabelada, irritada, bufando, xingando o pobre do Henry Ford que inventou a produção em série de veículos e me perguntando que raios estou fazendo com a minha vida. O importante é que cheguei viva e sem nenhum assassinato nas costas, reformulei.
Ao olhar para minha cara e sentir minha respiração a esteticista me aconselhou:
- Relaxe...
Já que havia chegado, resolvi que iria aproveitar e relaxar. Afinal, esses momentos se tornaram raros na minha vida.
Deitei na maca, bastante confortável por sinal, fechei os olhos e nesse exato momento a esteticista colocou um som ambiente: cantos de pássaros. Imediatamente comecei a pensar na tristeza daquela cena e tentei me lembrar qual foi a última vez que ouvi o canto de um pássaro ao vivo. Não consegui. Nem sei se voltarei a ouvir um dia. E eu gosto de canto de pássaros ao vivo. Eu gosto de pássaros, gosto de bichos, gosto de mato, gosto de céu azul, gosto de estrelas, gosto do nascer e do pôr do Sol e não sei se verei tudo isso de novo porque passo os dias trancada no carro ou no escritório. Será que estou fadada a ouvir pássaros cantando apenas em CD? E enquanto eu pensava em tudo isso e ficava cada vez mais tensa e triste a esteticista continuava dizendo “relaxe”. E como eu podia relaxar diante dessa tragédia toda?
Mas eu precisava relaxar e resolvi fazer um esforço ainda maior. Foi quando começou a parte dolorida da limpeza de pele: a espremedura, quando transformam o seu rosto num verdadeiro limão. Aí não dava mesmo para relaxar, ainda mais quando comecei a pensar em todos os rituais de tortura aos quais nós mulheres nos submetemos em nome de um padrão de beleza imposto já nem sei mais por quem: essa maldita limpeza de pele, a torturante depilação (eu confesso qualquer coisa diante daquela cera quente), que por sinal preciso fazer, as idas semanais à manicure, ainda que eu tenha faltado nas últimas quatro semanas, a dieta que não faço, mas que deveria fazer e a academia que paguei e não estou freqüentando. Isso sem mencionar a vaidade intelectual que me faz trabalhar feito uma condenada e estudar feito uma burra e que juntando tudo não me sobra tempo para ser feliz.
Conclusão: quanto mais era espremida, mais pensava, mais culpada me sentia e mais tensa ficava. Já estava a ponto de me atirar pela janela quando essa parte do tratamento acabou.
- Agora relaxe, ouvi novamente.
Eu estou tentando, minha filha, estou tentando, mas como posso conseguir com essa pressão???, foi o que apenas pensei em responder.
Nova tentativa de relaxamento, diante da melhor parte da limpeza de pele: a massagem facial.
Por Deus e pelos anjos, quem inventou a massagem? Para mim é o que há de mais divino nesse planeta e sempre depois de uma massagem eu tenho vontade de abraçar o massagista e agradecê-lo por esse ato de amor. Foi nesse ponto que parei pra pensar se eu não deveria ser massagista e passar a vida praticando o bem, pois nesse momento o único bem que pratico é para o acionista da empresa em que trabalho. Por que não passar meus dias fazendo massagem nos outros e deixando as pessoas felizes, trancada numa salinha em silêncio, ouvindo música clássica (eu não iria jamais colocar o som do canto dos pássaros, pois já deu pra perceber o quanto me fez mal)? Por que me deixar ser explorada pelo acionista? Afinal, qual a minha missão?
Pelo jeito fui ficando ainda mais tensa, pois no meio dessa crise existencial ouvi:
- Você precisa relaxar.
Assim mesmo, firme como uma ordem.
Tudo bem, agora eu vou relaxar, prometi para mim mesma.
Fim da massagem (ótimo, já não preciso mais pensar para que raios nasci) e anúncio da próxima etapa:
- Agora vou passar uma máscara relaxante de camomila e maracujá (apesar de eu estar mais pra Prozac) e você vai fechar os olhos e relaxar (ela devia estar cansada de me pedir pra relaxar, pobre mulher).
Tudo bem, agora não vai ter jeito de eu não relaxar, pensei já quase rezando.
A santa da esteticista começou a dar pinceladas no meu rosto com a máscara relaxante, que tinha cheiro de plástico de boneca. Mas qual boneca tinha esse cheiro? A Kátia, a primeira boneca que minha avó materna me deu? Coitadinha da minha avó, que fez tanto sacrifício pra me presentear com bonecas durante toda a minha infância. Lembrei de sua carinha feliz quando via a minha alegria com aquelas bonecas todas e senti muito a sua falta. Mas a Kátia era feita de um plástico vagabundo que não devia ter esse cheiro gostoso. Será que era a Guigui, que também ganhei da minha avó? Acho que não. Também não era o Boneco, o primeiro (e único, acho) boneco menino que tive. Ah, devia ser a “Minha Vida”, que eu batizei de Carolina e de quem cuidei por tantos anos. Aquele plástico sim tinha um cheiro bom. Mas podia ser também o cheiro da Barbie ou da Susy. Qual boneca era???
Fiquei lá lembrando das bonecas e não consegui descobrir qual delas tinha esse cheiro. O que consegui, no entanto, foi constatar que a infância passa muito rápido e eu fiquei com saudades até do útero da minha mãe, pois a limpeza de pele ia chegar ao fim e eu teria que encarar aquele trânsito de novo até o escritório e lá dentro agüentar o chefe, a pressão e o mau-humor de todo mundo, inclusive o meu.
A angústia foi aumentando e eu já estava para chorar quando ouvi:
- Pronto, acabou. Conseguiu relaxar?
Eu estou advogada, mas já estive radialista.
Eu estou casada, mas já estive solteira.
Eu estou Luciana Gerbovic Amiky, mas já estive Luciana Gerbovic.
Eu estou aluna de pós-graduação, mas já estive aluna de graduação.
Eu estou má aluna, mas já estive boa aluna.
Eu estou feliz, mas já estive triste.
Eu estou cansada, mas já estive disposta.
Eu estou trabalhando muito, mas já estive trabalhando pouco.
Eu estou trabalhando, mas já estive sem trabalhar.
Eu estou acima do peso, mas já estive abaixo.
Eu estou de cabelo comprido, mas já estive de cabelo curto.
Eu estou pouco loira, mas já estive muito loira.
Eu estou comendo muito, mas já estive comendo pouco.
Eu estou dormindo pouco, mas já estive dormindo muito.
Eu estou sedentária, mas já estive ativa.
Eu estou com pouco dinheiro, mas já estive com muito.
Eu estou morando em São Paulo, mas já estive morando em outras cidades.
Eu estou vendo pouco meus amigos, mas já estive vendo muito.
Eu estou lendo pouco, mas já estive lendo muito.
Eu estou ansiosa, mas já estive tranqüila.
Eu estou viajando pouco, mas já estive viajando muito.
Eu só não estou, nem nunca estive, capaz de definir o que sou.
meu, meu, meu
seu, seu, seu
viu? viu? viu?
cause love is blind
each other, voices, skin, voices
each other, voices, skin, voices
each other, voices, skin, voices
hard enought for me
meu, meu, meu
seu, seu, seu
viu? viu? viu?
cause love is blind
Leticia Kamada
os samples aqui utilizados foram tirados de:
http://ccmixter.org/media/reviews/leticiakamada/9719
conhece?
Leticia e Pixinguinha diz:
eu tô com planos de morar em Florianópolis .....viver da pesca
LU GERBOVIC diz:
vc vai pescar????? Ou mandar alguém pescar pra vc?
Leticia e Pixinguinha diz:
vou não, já estou pescando!!!!!!
LU GERBOVIC diz:
Hahahahhahahahahhahahahhahahahaha
Leticia e Pixinguinha diz:
tô treinando no lago!!!! é sério
LU GERBOVIC diz:
ah tah...daí quero ver vc no meio do mar...vc vai se matar....só se for viver de pesca em lago
Leticia e Pixinguinha diz:
então....... lá tem uma lagoa
LU GERBOVIC diz:
tô imaginando a cena: Leticia peso pena às 04h00 da matina no meio do oceano, procurando cardumes...acha um prateado, lindo! Atira a rede.........e cai no mar.....vai viver que nem sereia daí
Leticia e Pixinguinha diz:
Hahahahahahahahahahahahaha
Leticia e Pixinguinha diz:
tá mais pra: Leticia peso pena às 04h00 da tarde no meio do oceano, procurando cardumes...acha um prateado, lindo! Atira a rede.............e fica com dó do bichinho!!!!!!!!! Acredita que chorei quando peguei um pacu.......
LU GERBOVIC diz:
eu pensei nisso, no fundo eu achei que esse era o final, mas já que tá treinando, achei que tinha superado essa fase do dó.....eu acredito que chorou!!!!!! Eu nem gosto de ver, fico mal de ver o bicho se debatendo, lutando pela vida...e depois ir morrendo aos poucos...é cruel ............vou parar de comer peixe!!!!
Leticia e Pixinguinha diz:
muito cruel........por isso tô treinando........
LU GERBOVIC diz:
ai lelê...vai viver da agricultura então...alface não tem olhos mesmo
Leticia e Pixinguinha diz:
e vc? qual seu plano?
LU GERBOVIC diz:
explodir o mundo, por enquanto...portanto pesque enquanto é tempo
Leticia e Pixinguinha diz:
haahahahhahahahahaha
LU GERBOVIC diz:
BUUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM
Leticia e Pixinguinha diz:
cataplaft!
LU GERBOVIC diz:
AAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
LU GERBOVIC diz:
.............................................................................................................
LU GERBOVIC diz:
No começo, era o caos
Leticia e Pixinguinha diz:
portanto, realiza comigo: estamos no começo!
Lu Gerbovic se retira...não sabe se fica feliz ou triste: estamos no começo ainda!
As mães que me perdoem, mas a vontade é a mãe (hermafrodita ainda) de todos os males humanos, por isso só os pimentões são felizes.
Todos os pimentões vermelhos são vermelhos.
Todos os pimentões verdes são verdes e todos os amarelos são amarelos (apesar do dicionário Aurélio não mencionar o pimentão amarelo – o que ele tem contra os amarelos?), mas eles se misturam bem e resultam numa bela salada.
Os pimentões são pimentões. Isso. Ponto. Está definido: erva alta da família das solanáceas muitíssimo usada como hortaliça. Serve também para o preparo do colorau, mas ainda assim é um pimentão.
"o corpo tem alguém como recheio" (arnaldo antunes)
Já parou para pensar, mas pensar mesmo a ponto de acreditar, que seu corpo pode simplesmente parar amanhã? O coração pode falhar, o cérebro parar, os pulmões arrebentarem, as pernas e braços se imobilizarem.
O recheio não pode continuar o mesmo depois dessa (sincera) constatação.
Eu nunca bati com o dedinho nas quinas dos sofás nem mesmo tropecei nos tapetes. Os malditos sofás e tapetes é que se colocaram no meu caminho e me fizeram chorar.
Eu sempre fui fiel companheira dos meus amigos. Eles é que não souberam compreender o valor da minha amizade.
O mesmo aconteceu com os meus amores. Eles é que não enxergaram a grandeza e a unicidade do meu amor.
Eu também sempre dei meu sangue pelo trabalho. Os meus chefes é que foram injustos e ingratos.
Eu nunca agi com arrogância, egoísmo e desatenção. Eu apenas reagi.
Eu concordo com Sartre quando ele diz que “o inferno são os outros”. Como pode alguém entender que essa frase significa “o inferno somos nós mesmos”, como se os outros fossem espelhos?
Se eu sou esse ser único e especial desse lado do portão, por que raios teria que abri-lo para ver o que há do lado de lá? Cada gente estranha nesse mundo...
No livro de histórias da Juliana havia uma que dizia que as fadas se escondem no nosso mundo sob várias formas: bombom, flor, bonecas etc.
A história foi lida logo depois de eu ter ganhado uma bela caixa de bombons. Perguntei pra Juliana: “Será que nessa minha caixa há uma fada?”, ao que ela prontamente respondeu, “Fadas só existem no mundo mágico, Tia Lu”.
Eu sou árvore.
Eu sou pássaro.
Eu sou Zeus.
Eu sou Ares.
Eu sou opaco.
Eu sou transparente.
Eu sou cão.
Eu sou gato.
Eu sou rato!
Eu sou caça.
Eu sou caçador.
Eu sou lobo.
Eu sou cordeiro.
Eu sou rocha.
Eu sou água.
Eu sou criança.
Eu sou ancião.
Eu sou doce.
Eu sou azedo.
Eu sou copo cheio.
Eu sou copo vazio.
Eu sou mente.
Eu sou corpo.
Eu sou espírito.
Eu sou coração.
Eu sou eu.
Eu sou você.
Eu sou nós.
Depende do dia.
Depende da noite.
Depende do Sol.
Depende da Lua.
Depende da brisa.
Depende do mar.
Depende da hora.
Depende do minuto.
Depende de tudo.
Depende do nada.
O que eu quero.
O que eu posso.
O que você quer?
O que você pode?
Algumas palavras ou expressões a gente pronuncia com a boca cheia de prazer. É o caso daquele “caralho” quando uma coisa muito boa ou muito ruim nos acontece. É também o que acontece com o “eu te amo” dito pela primeira vez, depois de tanto tempo escondido no coração.
Eu tenho uma expressão que enche minha boca de orgulho: “amiga de infância”.
Não existe pra mim nada mais prazeroso do que dizer “eu tenho uma amiga de infância...”.
Sabe quando estamos conversando com alguém e ao contar um casinho você diz: “eu tenho uma amiga de infância que viajou para o Zimbabwe....?” Pois é, eu digo assim: “eu tenho uma AMIGA DE INFÂNCIA etc etc etc”
Ter uma amiga de infância (ou amigo, claro – é que no meu caso passei a infância brigando com a maioria dos hoje tão queridos garotos) é sinal de vitória. Significa que você é capaz de manter, apesar do tempo e da distância, laços fortes de amor com uma pessoa que não tem com você qualquer relação de parentesco ou sexual.
Quando mencionamos que temos um(a) amigo(a) de infância queremos dizer que há uma pessoa nesse planeta que tem algo muito importante: nosso passado.
Apesar de hoje magrelas em função da fome imposta pela ditadura da moda, nossa amiga de infância sabe que já fomos gordinhas um dia. Ainda que hoje tenhamos um gosto musical mais refinado, nossa amiga de infância sabe que perdemos a voz de tanto gritar pelo Menudo. Ela também sabe por quantos garotos já choramos e quantos vexames já passamos.
Amigos de infância são como o espelho.
O amigo de infância evoca escolha, amor, companheirismo, cumplicidade, intimidade, persistência, paciência, tudo isso junto. E um pouco mais.
Há como não se sentir orgulhoso ao dizer “eu tenho um AMIGO DE INFÂNCIA”?
Alguns acreditam que nossas cores fazem diferença. Esses alguns, que para mim não têm ainda definição e qualificação, não sabem apreciar a beleza e a profundidade do colorido.
Para esses alguns, essa LINDA lição da natureza...mais uma!
PS: esses alguns não vão entender essa lição, não é mesmo? Mas eu insisto.
Há algumas semanas eu circulava de carro pela Marginal Pinheiros quando me deparei com pessoas navegando de caiaque pelo rio que leva o mesmo nome. Claro que meu primeiro pensamento foi “que gente louca”, por mais que estivessem enfeitando a paisagem com suas roupas coloridas.
Cheguei mais perto e percebi que a louca era eu, de achar que um bando de gente iria passar o dia navegando de caiaque pelo Rio Pinheiros. Tratava-se de bonecos ali colocados pelo artista plástico Eduardo Srur, que decidiu reconstruir um cenário de algumas décadas atrás.
Hoje pela manhã, passando lentamente (óbvio) pela Marginal Pinheiros, vi novamente os navegadores coloridos. Achei a idéia muito legal, pois nos gera um sentimento de culpa e remorso e nos põe para pensar.
Aí fiquei pensando como seria se eles fossem mesmo gente. E se fosse verdade? Como seria passar pela Marginal Pinheiros ao lado de um rio limpo, bonito, agradável e ver pessoas ali nadando e navegando? Algumas pessoas já viram sim essa cena, mas eu já nasci com o rio doente. Meu coração se encheu de alegria ao imaginar essa cena.
Só que alguns metros à frente vejo um monte de caiaques juntos. “Bateram”, pensei. Dirigi um pouco mais e vi a verdade: os caiaques estavam todos encalhados em cima de uma montanha de lixo que transformava o rio em uma substância sólida. Ao lado e por cima deles, um bando de urubus.
A verdade não precisava ter se colocado à minha frente de maneira tão brutal em tão curto espaço de tempo. Doeu.
Lu Gerbovic
música de Milton Nascimento
voz do Nildo
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A gente nasce no mar, mas em algum momento somos jogados num aquário, sem ao menos se dar conta disso. A água de um vai se misturando aos poucos com a do outro e quando percebemos não vemos mais toda aquele imensão com seus inúmeros caminhos.
Cadê todos os peixinhos que nadavam comigo sem se preocupar com o tubarão? Ou até mesmo sem saber que esse tubarão existia. Onde estão os peixinhos e peixões que me ajudavam a escapar da rede, a rede que sempre vem? Seja no mar ou no aquário, a rede vem, presa em uma mão louca para nos pegar. Só que no aquário nos sentimos menores para dela escapar.
Se eu ainda fosse um peixinho e lembrasse como nadar, eu estourava o aquário e me atirava no mar...
O sapo é grande e gordo e marrom e pegajoso e nojento.
O sapo não é mal, mas fica lá fora a me prender aqui dentro. Eu não posso ser livre com o sapo lá fora porque o medo aprisiona.
O sapo não me olha, mas está lá fora.
O sapo é MUITO grande e MUITO gordo.
O sapo existe. Existe desde que eu era criança.
O que eu sinto pelo sapo? Nada, porque ele me paralisa. Eu não penso, não respiro, não me movo e meu coração não bate. Então eu não sinto nada pelo sapo porque ele não me deixa sentir.
O sapo me mata. O sapo.
Eu não desgosto do sapo, mas a existência do sapo não me deixa existir. Ou ele ou eu no mundo.
Mas por que o sapo? Por que não a lagartixa, a borboleta, o gafanhoto, a barata, a galinha, o leão ou o elefante?
Será por que o sapo é feio? Mas a feiúra depende de quem vê.
O sapo é feio? Não sei, porque o sapo não me deixa ver. Quando vejo um sapo só enxergo o nada.
O sapo é grande. O sapo é enorme. O sapo tenta pular. O sapo tenta andar. O sapo só fica parado. O sapo me pára.
O sapo não lava o pé, não lava porque não quer.
O sapo está lá fora e eu aqui dentro. Ele nã entra. Eu não saio. Nunca enquanto ele estiver lá.
O sapo vai me matar!
O sapo no fundo é bonzinho. Só o homem é malzinho mesmo.
Uma lista escrita há dois anos e encontrada há dois minutos:
Te amo, Lelê.
Eu amo a Leticia
Eu amo o Zeca
Todos os cães
O barulho da chuva
A minha cama
As pessoas que me amam
E as que não também.
Escrever.
Os livros
Fazer novos amigos
Reencontrar velhos amigos
Reencontrar antigos conhecidos
Fazer planos.
Executá-los.
Fazer yoga
Beber com amigos
Dar risada
Observar os animais
Ajudar um bichinho
Ajudar uma pessoa
Dia de sol
Barulho do mar
Doce.
Jantar com a família
Meus irmãos.
Conversar com uma criança
Assistir a uma boa aula
Dar um abraço
Ganhar um beijo
Fazer um afago
Ficar abraçada
Falar que eu amo.
Deitar numa rede
com um bom livro.
Conversar.
Ouvir música
Aprender
Ir a um lugar que não conheço.
São cinco horas da tarde do dia 20 de setembro de 2006. Uma forte chuva caiu sobre São Paulo. O céu ficou escuro em plena tarde e acaba de clarear.
Durante alguns segundos de silêncio das buzinas dos carros que passam pela Ministro Rocha Azevedo, em pleno Jardins, ouço o piar de um pássaro. Imagino que ele está com uma carinha feliz, todo molhado da água da chuva, tamanho o acalento que sua voz frágil me provoca. Eu posso até imaginá-lo dançando.
Há tempos eu não parava para ouvir um pássaro, principalmente no centro de São Paulo. Ouvi-lo encheu meu coração de alegria e de esperança. Esperança de quê? Não sei. Mas a alegria foi por perceber que alguns serezinhos ainda se arriscam a viver em meio ao caos e às buzinas tocadas por pessoas completamente estressadas e mal educadas, como que com a finalidade única de acarinhar alguns corações solitários da cidade.
Um pouco de literatura, para os apaixonados (ou não) como eu:
Desde que li o primeiro livro de Pedro Juan Gutiérrez entendi o que ele explicou na sua mais nova obra, "O ninho da serpente":
"Quem não se atreve a chegar ao limite não tem o direito de escrever. É preciso empurrar todos os personagens até o limite. É preciso aprender a fazê-lo. Mas ninguém pode ensinar como se faz isso".
É essa lucidez, cruel de tão lúcida, que me atrai nos seus livros. Depois de descrever, na obra "O ninho da serpente", a triste morte de um macaquinho nas garras de um leão, no zoológico de Havana (o Pedro Juan é cubano), o personagem, Pedro Juan (sim, sim), explica:
"Eu tinha assistido àquilo tudo dando risada. Era muito divertido. Não entendia nada de amor, nem de boleros, nem de morte e sensações de perda. Nada de nada. E portanto era cruel, impiedoso, ignorante e feliz. O homem típico. Quer dizer, um imbecil perfeito".
Saio de casa, num condomínio fechado a 25 km de distância da capital de São Paulo, rumo ao escritório, na esperança de lá chegar uma hora depois.
Coloco a bolsa embaixo das pernas, o que me causa certo desconforto, ao mesmo tempo em que me dá a sensação de poder dirigir um pouco mais segura pelas marginais de São Paulo.
Ligo o rádio, a fim de saber se entro em São Paulo pela Marginal Pinheiros ou Tietê e eis o que ouço: já são 72 os policiais e agentes carcerários mortos em confronto com o crime organizado nesse último final de semana.
Os criminosos, há muito mais organizados do que nossa polícia, seja ela civil, militar ou federal, começaram a rebelião atacando bases policiais e estenderam esses ataques a agências bancárias e empresas de transporte público, que eu imagino ser de alguma serventia para amigos e parentes desses criminosos, mas não se trata aqui de entender essa lógica.
Antes mesmo de ouvir a notícia atualizada da rebelião, eu já estava preparada para enfrentar minha luta diária: vias urbanas completamente congestionadas; motoqueiros raspando seus pés e espelhos laterais das motos no meu carro, enquanto eu penso se serei ou não assaltada; pessoas desconhecidas se xingando mutuamente logo pela manhã; motoristas furiosos jogando seus carros contra o dos outros e motoqueiros estirados no meio do asfalto, mortos ou semi-mortos.
Hoje, porém, percebo que a batalha terá novos elementos, pois o caos se espalhou pela cidade. No rádio, é a vez do ex-secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo dizer: “está na hora de revermos nosso sistema carcerário e a lei de execução penal”. Está na hora? Foi isso o que ele disse? Essa hora passou faz tempo e não é possível que eu seja a única a perceber.
Olho para os lados, à procura de cumplicidade nos outros motoristas, mas não vejo nada além de vidros escuros totalmente fechados e não ouço nada mais que buzinas tocadas por motoristas estressados. Estou só.
Entro numa via paralela à estrada Castelo Branco, que me dá o privilégio de andar a 120 km/h (contra 110 km/h da antiga via) e cortar um pouco do trânsito. Para tanto terei que desembolsar R$ 5,40.
Ao entrar na chamada “marginal pedagiada” um luminoso: “São Paulo pede paz”.
Essas quatro palavras ficam gravadas na minha mente e eu me pergunto qual será a eficácia desses dizeres. Terá esse luminoso algum efeito sobre as pessoas? Não precisamos nos esquecer dos afazeres do dia e ir para as ruas pedir paz? Até quando viveremos essa guerra em silêncio?
Continuo olhando para os lados à procura de amparo, mas sou fechada pelos motoristas apressados que precisam, assim como eu, chegar no escritório e trabalhar no mínimo 9 horas por dia em troca de um baixo salário.
As pessoas não têm tempo de ir para as ruas. Ninguém está preocupado com as famílias dos policiais que morreram. Parece não haver ninguém se importando com essa guerra. Repito: guerra!!!
Um dia prometi a mim mesma que eu nunca me permitiria perder o meu poder de indignação.
Eu gostaria de conseguir escrever neste espaço todos os dias. Mas o que ando fazendo com o tempo (ou o que o tempo anda fazendo comigo) que não consigo parar todos os dias por alguns minutos que seja?
Eu pergunto mas eu mesma posso responder: são nove horas no mínimo dentro de um escritório, com direito a uma pausa de uma hora para almoço, mais três ou quatro horas em sala de aula ou em preparação para a aula, somadas a umas três horas diárias no trânsito (sim - três horas NO MÍNIMO), que já totalizam algo em torno de dezesseis horas.
Nas oito horas que restam eu costumo gastar uma hora em banhos, café da manhã e lanche da noite, o que significa que tenho no máximo sete horas para dormir. No entanto, perco uma meia horinha por dia brincando com os cães e mais uma meia hora conversando com o marido. Nas outras seis horas eu tento dormir, mas como não consigo relaxar enquanto não leio uma página pelo menos acabo dormindo umas cinco horas e meia.
Conclusão: eu trabalho demais, moro numa cidade com um trânsito infernal, leio muitíssimo pouco (ainda mais se considerarmos a pilha na cabeceira), não escrevo tanto quanto eu gostaria, vejo muito pouco meus amigos, não conheço a cidade como eu deveria e não assisto a todos os filmes que desejo.
Mas o que me intrigou é que nesse último feriado de 7 de setembro eu passei quatro dias no alto de uma montanha localizada numa cidade habitada por 4.000 pessoas.
Na descida da montanha, já no domingo à noite, me deparei com a igreja da cidade lotada de fiéis durante a missa das seis horas. Na praça em frente à igreja, inúmeras crianças (creio que todas da cidade) brincavam sozinhas no coreto (coreto!), enquanto alguns casais namoravam sentados nos bancos da praça (infiéis, pelo jeito).
Ali parecia que o tempo tinha parado. Não havia um carro em movimento. Não havia uma pessoa apressada. Eu poderia jurar que estava em outra dimensão.
O problema é que ao mesmo tempo em que eu estava maravilhada com a constatação de que o tempo existe, eu me perguntava como é que alguém poderia viver daquela maneira. Como as pessoas conseguiam, num domingo à noite, simplesmente sentar no banco da praça e ficar olhando para o "nada"?
Aquele encantamento, no momento dessa pergunta, se transformou em tristeza, pois percebi que nós, da cidade grande, já nos acostumamos tanto com o fato de que o tempo deixou de existir que quando nos deparamos com ele ficamos assustados, por mais que passemos nossos dias atrás dele.
De todas as pessoas que conheço, sou a que mais gosta de cachorros, apesar da minha mãe ficar quase ali comigo no primeiro lugar.
Tudo começou quando eu tinha uns 2 ou 3 anos e meus pais me deram o Pitoco, um dauchshund (salsicha, né?) pretinho.
O Pitoco foi meu primeiro grande amigo, o primeiro ser que me ensinou sobre responsabilidade afetiva, antes mesmo do Pequeno Príncipe: se alguém gosta de mim, devo respeitá-lo mais do que a mim mesmo. Tudo bem que até hoje dou cabeçadas, mas a primeira lição veio do Pitoco e não irei reproduzi-la nesse momento por não estar disposta a chorar agora.
Logo após o Pitoco veio o Banzé, um salsichinha caramelo, irmão de outra ninhada do Pitoco.
Em razão de uma briga com os dálmatas da vizinha, o Pitoco não resistiu e morreu quando eu tinha 9 anos. Minha primeira grande perda. Minha primeira grande tristeza. Minha primeira grande lição sobre a vida.
Muitos cachorros vieram depois do Pitoco e também do Banzé, no que eu chamo de uma primeira fase: o Faro, um fila brasileiro amarelo; o Banzé II, uma mistura de cocker e vira-lata; o Caco, também cocker com vira-lata (mesma mãe do Banzé, que pelo jeito gostava de um malandrão, já que os dois eram de ninhadas diferentes); o Corman (Corínthians e Mangueira), um fila cinza lindo de morrer; o Viola, um filho de fox com cocker e o Chang, um shar-pei amarelo legítimo.
Digo que essa foi uma primeira fase porque esses cachorros todos me lembravam da perda do Pitoco. Durante anos eu me obriguei a não me afeiçoar a eles (não que eu tenha conseguido, já que gostava demais de todos eles), pois sabia que um dia eles me deixariam e eu iria sofrer tudo de novo. Seguindo essa minha lógica (covarde e inútil), quando eu percebia que estava amando demais, fugia.
Foi nessa primeira fase que me mudei de Sorocaba para São Paulo, passando a morar sozinha. Depois de alguns anos, o que aconteceu? Claro, senti uma falta imensa de cachorros e arranjei um cão de apartamento: o Zeca, um poodle branquinho.
O Zeca não fez reaparecer o meu amor pelos cães porque na verdade ele nunca foi embora, mas o Zeca tornou o meu sentimento mais corajoso: eu amava os cachorros e a partir de agora sofreria por eles o quanto fosse preciso, impedindo que o medo me privasse de viver momentos maravilhosos. Algo parecido com outros amores que temos na vida, não?
A partir daí fiquei tão corajosa que não bastasse minha casa em Sorocaba já estar habitada nessa segunda fase pelo Tobias, um buldogue fofo, pelo Fubá, um labrador amarelo e pelo Branco, um labrador preto, eu arranjei uma família na rua: Aurora, uma vira-lata especial e adorada, mãe do Achado, da Bionda e da Morena. Na verdade, levei a Aurora com a ninhada apenas para curá-los da sarna e da desnutrição, mas a paixão, o amor e o orgulho que me deram não me permitiram vislumbrar a possibilidade de outra família para eles. Ninguém os amaria mais do que eu.
Depois deles cuidei de vários outros vira-latinhas da rua: uma ninhada de 5, dentre os quais 2 foram doados, 2 morreram (que choradeira) e uma ficou em casa, a Matilda. Depois dela vieram a Sasha, das ruas de São Paulo (mas foi minha mãe quem a levou); a Belinha, a Sara e a Nina, todas doadas; a Juju, também doada; o Dingo, doado; o Bento, a Menina e a Boneca (também minha mãe - eu fiz escola), que estão em casa hoje; o Madruga, na empresa, sem mencionar aqueles para os quais arranjei um lar e nem mesmo fiquei sabendo o nome.
Hoje em Sorocaba são 13 cães no total, fora o Ulisses e a Penélope que moram comigo e costumam passar os feriados e as férias na casa da "vó".
Todos esses cachorros e cachorras que já passaram pela minha vida, cada um a sua maneira, fizeram e fazem de mim uma pessoa melhor. Assim como a vida só tem valor com a morte, acredito que só nos damos conta da nossa humanidade quando convivemos e respeitamos um ser não-humano.
Olhar nos olhos desses bichinhos, perceber sua dignidade e sinceridade, aceitar o seu amor e respeitar seus sentimentos faz com que sejamos maiores e melhores.
O homem convivendo só com seus semelhantes passa a crer que é o dono da natureza e tem a certeza de que o mundo existe só para satisfazê-lo. Precisamos desses serezinhos ditos não racionais para nos ensinar sobre a nossa humanidade.
No Brasil ninguém mais come cachorro-quente nem nunca comeu uma refeição rápida.
Também não há centro de compras e as liqüidações (ainda mais com trema) acabaram.
Aos poucos estamos acabando com as estações do ano, principalmente o verão.
As empresas não têm mais presidentes e diretores.
Isso sem mencionar a área de tecnologia.
Diante da inevitabilidade de certas coisas, tento enxergar o lado bom de irmos ao shopping em São Paulo aproveitar uma sale e comer um hot-dog com milk-shake: essa proximidade com a língua inglesa pode estimular o estudo de uma segunda língua, não? Ou pode propiciar uma melhor interação entre os povos. Enfim, é claro que há o lado positivo nisso tudo e nem mesmo defendo a posição extremista de Portugal.
Mas também não precisamos exagerar. Ao chegar no "shopping" Iguatemi em São Paulo, sábado passado, me perguntei: "qual o problema com o estacionamento???".
Não se trata do "shopping" que aqui nunca soube que era um centro de compras, mas do bom e velho estacionamento, onde estacionamos (e não parkamos) os nossos carros.
Parece que a missão do Brasil foi e sempre será ser a melhor colônia que o mundo já viu, renegando o que tem de bom, como a bela língua portuguesa e admirando só o que vem lá de fora com pose de dono do mundo (pode também não vir lá de fora, mas tem que ter pose de dono de mundo pelo menos, como as madames que circulam pelo "shopping" Iguatemi, por exemplo).
PS: uma idéia acabou de me ocorrer, e pode ser que a culpa de tudo isso seja do Joaquim Osório Duque Estrada. Afinal de contas, ele fez com que um povo que mal sabe soletrar o próprio nome tenha que colocar a mão no peito e cantar "ouviram do Ipiranga as marges plácidas de um povo heróico o brado retumbante...". Deve mesmo ser mais fácil cantar "Oh, say, can you see, by the dawn´s early light...".
Estou testando um novo método para avaliar minhas prioridades e valorar minhas escolhas: o do leito de morte.
Para saber em que lugar da minha lista de prioridades tal ato ou fato está e para saber o quanto aquilo é importante pra mim, me pergunto: "no momento da minha morte, por um segundo que seja, me arrependerei ou não de ter feito isto ou aquilo? Vou chegar a me lembrar desse momento na hora de minha morte?"
Se a resposta for sim, aquele fato merece que eu lhe dê valor. Por exemplo: fiz uma prova de finanças onde tive que calcular valor de empresas, preço de ações, EVA, ROI, ROL, ROE, ROA, PVA, P/L, NOPAT e mais uma série de coisas que no fundo eu acho que são pegadinhas e fui muito mal. Eu, uma pessoa que ama as palavras e não se entende com os números, devo ter tirado um belo zero e saí mal da sala de aula. Aí pensei: "no momento da minha morte, vou pensar nessa prova e me arrepender de não ter estudado mais?" Não, não vou. Não vou nem me lembrar dessa prova. Então esse fato não tem tanto valor assim.
Tentando me acostumar a essa idéia, fui pra casa depois da prova um pouco cabisbaixa. Ao chegar, louca para me enfiar na cama e dormir, encontrei minha cadelinha doida para brincar. Pensei: "na hora de minha morte, vou pensar que eu poderia ter brincado mais com a Penélope?" Sim, vou. Então tratei de correr pela sala com ela, pois essa brincadeira tem muito valor.
E por aí vai: convite para um cinema num dia em que eu deveria dormir cedo. Uma viagem num feriado onde eu deveria fazer alguns trabalhos extras. Um bar com os amigos numa hora em que deveria estudar. Tudo isso tem muito valor.
Isso não significa que fugirei das obrigações e responsabilidades, as quais levo exageradamente a sério (e talvez até por isso esteja tentando encontrar uma maneira de não sofrer tanto pelas suas consequências), mas o novo critério possa talvez me ensinar a dar o real valor para as coisas.
Fugi dessas imagens nas últimas semanas como pude, por pura covardia. Ver essas crianças mortas ou despedaçadas chegou a me causar um mal físico, uma dor de estômago e uma vontade de vomitar.
Essa foto, no entanto, explodiu na minha frente sem que eu me desse conta, e não pude ignorá-la.
Fico olhando para a foto desse pai carregando o corpo de uma pessoinha que um dia foi seu filho e me pergunto: ele acredita em Alá? Ele acredita no Partido de Deus? No que, meu deus, ele acredita? Em que ele está pensando nesse momento?
Esse desejo inerente ao homem de se sentir poderoso ultrapassou todos os limites da minha compreensão e inteligência.
Domingo, 20 de agosto de 2006 – 22h30 – Grande Tenda do Cirque du Soleil – São Paulo
Aplaudo, em pé, satisfeita e emocionada, os artistas do Cirque du Soleil, aparentemente misturas de ser humano, máquina e obra divina.
O Cirque do Soleil, além de nos mostrar os frutos advindos da dedicação e coragem, nos ensina que animais não nasceram para dançar can-can sobre placas quentes nem para passar no centro de rodas de fogos ao ouvirem o estalo de um chicote. Gente é gente. Bicho é bicho. Gente é artista em circo. Bicho é artista solto na natureza.
Não se faz espetáculo com exploração.
Palmas para eles.
Segunda-feira, 21 de agosto de 2006 – 22h30 – Esquina da Avenida de Julho com a Rua José Maria Lisboa – São Paulo
Choro, sentada dentro do carro, triste e revoltada, ao ver no semáforo as crianças malabaristas do Cirque du Brésil, frutos do descaso, da corrupção e da exploração.
O Cirque du Brésil tem conseguido colocar no picadeiro cada vez mais e mais artistas. Os adultos, na sua maioria, trabalham como palhaços e malabaristas. Muitos ficam à frente de atiradores de facas, torcendo para que esses não os acertem. As crianças começam como malabaristas, atirando bolinhas de tênis para o alto ou fazendo pirâmides humanas. Muitas, no entanto, já são exímias atiradoras de faca.
O problema é que nenhum desses artistas está no circo porque quer. São como os leões, elefantes e macacos acorrentados e treinados para fazer suas leonices, elefantices e macaquices. Os artistas do Cirque du Brésil não sabem que o circo pode se transfomar num Cirque du Soleil.
A minha esperança, naquele momento ao menos, foi de que nossos artistas mirins possam ser capturados pelo Cirque du Soleil durante sua passagem pelo Brésil.
Depois de três dias de congresso em Curitiba, extremamente cansada, resolvi voltar para São Paulo num vôo marcado para as 17h30 de uma sexta-feira.
Ao entrar na sala de embarque, uma hora antes do horário previsto para a decolagem, fui informada pela tensão que estava no ar de que o vôo estava atrasado, e muito.
Como meu desespero e meus protestos não teriam o poder de fazer surgir um avião na pista pronto para decolar, e também em razão do meu cansaço, resolvi simplesmente me acomodar numa das cadeiras e esperar o tempo passar da melhor maneira possível.
No momento em que tirei um livro da bolsa, porém, percebi que o clima estava carregado demais para que eu desfrutasse desse prazer e então resolvi que naquelas horas que se seguiriam eu iria simplesmente observar, afinal de contas essa é uma das mais ricas experiências que podemos ter em locais públicos.
Ao meu lado esquerdo o gerente comercial de uma empresa de transportes recebia e enviava emails decidindo as mais diversas questões operacionais. Ao lado direito uma executiva falava com duas pessoas ao mesmo tempo, segurando um celular em cada orelha, enquanto comia um sanduíche, que disse ser seu almoço.
Na minha frente havia um arquiteto com um fone já acoplado na orelha, para que as duas mãos ficassem livres para checar os emails no notebook e folhear uma edição da “Arquitetura & Construção” e ao lado dele um verdadeiro desfile de executivos, todos usando o celular e o notebook ao mesmo tempo, decidindo questões envolvendo não só muito dinheiro mas também a vida de outras pessoas.
Alguns gritavam e pediam que emails lhes fossem enviados enquanto estivessem voando, para que pudessem lê-los assim que o avião aterrissasse, enquanto eu observava e me perguntava se tudo aquilo era mesmo necessário.
Será que todos esses profissionais estavam resolvendo questões que não podiam esperar uma ou duas horas? Eu reconheço que o tempo de espera num aeroporto pode ser utilizado para o trabalho, mas não é essa questão.
O que eu gostaria mesmo de saber é se as pessoas estão se dando conta de que a neurose da luta contra o tempo e a favor da produtividade entrou no inconsciente coletivo e faz com que ninguém mais consiga ficar sentado num aeroporto não trabalhando e sem culpa.
Quem olhasse aquela sala de fora, como eu estava tentando fazer, teria a impressão de que o mundo iria simplesmente acabar dentro de alguns minutos e a missão de cada um era salvar o que pudesse das suas organizações. Não havia um minuto a perder.
Nem mesmo dentro do avião, com todos os protestos das aeromoças, os celulares eram desligados e eu comecei a me perguntar quantos anos teriam aqueles senhores com rostos jovens e cabelos todos brancos. Quantos anos teriam os filhos desses homens e mulheres, dos quais eles obtinham notícias através de telefonemas para as babás?
Eu não sou contra o trabalho, muito pelo contrário: também não sei viver sem ele. Mas eu também amo minha família, meus amigos, meus cachorros e minha casa. Um mês de férias é tão importante para mim quanto os onze meses que passo trabalhando, mas a impressão que tenho é que nada disso mais importa.
Nós deixamos de trabalhar para viver e passamos a viver para trabalhar.
Se isso é bom ou ruim, só os adultos por nós “criados” poderão dizer.
Eu não defendo nem árabes nem judeus...defendo apenas a vida e a
dignidade humana que, não se esqueçam, inclui também o respeito pela natureza e pelos outros seres ditos não racionais.
De maneira que considero importante termos conhecimento de textos e até mesmo fotos, por mais chocantes que sejam, que nos levem no mínimo à reflexão. Mais uma vez, não para defender um ou outro, mas para nos defendermos de nós mesmos.
"Caiu na rede é PEIXE" é fruto de uma amizade que já dividiu bonecas, coleçao de papel de carta e borrachas perfumadas, batons, viagens, namorados, mesas de bares, bons livros e ótimos filmes, amigos, alegrias e angústias.
Agora dividimos este espaço, no qual Lulu brinca com as palavras e Lele com o som, entre nós e com você que veio nos visitar, obedecendo a um único critério: caiu na rede é PEIXE!
leticiakamada.wordpress.com
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